Nessas minhas idas e vindas de Amargosa já me tornei amigo do motorista e cobrador do ônibus, além de mais alguns passageiros habituais que fazem o percurso com frequência.
Infelizmente vez por outra sou forçado a suportar durante as quatro horas que duram a viagem as mais bizarras e insuportáveis criaturas. Desde uma patricinha dando escândalo por que o ônibus estava atrasado (e dizendo que é por coisas assim que ela só anda de avião) até uma beata fervorosa tentando converter todos no ônibus ao catolicismo. Passando por uma jovem mãe incapaz de controlar seus dois filhos que não paravam de maneira nenhuma. Mas hoje me deparei com alguém ainda pior. O tipo de pessoa que se eu fosse ditador do mundo já teria mandado exterminar.
A primeira vez que ouvi a expressão “alma sebosa” foi quando Maira estava descrevendo alguém que trabalha com ela. Não vou entrar na definição do termo, quem quiser saber que pergunte diretamente a ela. O fato é que essa mulher era uma verdadeira alma sebosa. Sua voz era uma mistura de disco arranhado com uivos agonizantes de algum animal sendo morto. A própria presença dela deixou o ônibus com um ar mais pesado, a sensação de mal estar era geral.
Acordei mais de uma vez com a criatura urrando que iria vomitar e mandando parar o ônibus. Como ninguém dava atenção ela berrava mais alto. O motorista parou para pegar passageiros e ela saiu se batendo pelo caminho. Minha esperança tomou forma em minhas palavras quando disse:
- Bem que a gente podia largar essa desgraça aí e seguir viagem.
As pessoas perto de mim riram, mas o motorista não parece ter escutado meu pedido pois a criatura retornou e a viagem seguiu.
Por mais de uma vez ela praguejou em sua cadeira, como se estivesse falando sozinha ou com fantasmas. Ou então com o exu que ela parecia carregar. No momento que a criatura finalmente desceu do ônibus, já quase em Salvador, a energia do ambiente voltou a ficar positiva imediatamente. Todo o peso que infestava o local saiu junto com ela. Ainda bem.
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