O que é EMM?

Um apelido "carinhoso" que ganhei há alguns anos. Aquilo que deveria ter sido uma ofensa acabou virando um elogio, e resolvi admitir que sou mau e misterioso. Ou ao menos finjo isso muito bem.

Aos 17 anos o jovem Jonas foi desenganado pelos médicos. Ele quebrou a perna enquanto jogava bola. Teve fratura exposta. Na época a penicilina ainda era um sonho distante para os moradores daquela pequena cidade no interior da Bahia.

Quando o ferimento gangrenou sua morte era certa. Seu pai encomendou o caixão e se preparou para enterrá-lo. Mas Jonas foi teimoso e não morreu.

Dos seus dias entre a vida à morte tudo que ele levou foi uma mancha na perna.

Jonas se casou com Rosa e tiveram três filhos. Sua esposa faleceu antes de conhecer todos os dez netos que vieram a ter; mas Jonas continuou, e amou a todos com intensidade, sendo mais do que um avô, mais do que um pai, mais do que um amigo.

Jonas não ficou viúvo para sempre, no lugar de sua Rosa ele colocou uma Flor, e ganhou uma enteada a quem amou como se fosse sua filha.

Jonas trabalhou muito em sua vida, mas era uma pessoa que sabia dividir trabalho com diversão. Fã de um carteado, adorava jogar pif-paf com os amigos. Ensinou todos os seus netos como jogar cartas, como blefar, mas nunca a trapacear. Jonas não acreditava em enganar os outros, nem mesmo por diversão.

Mesmo depois de aposentado ele continuava a ir trabalhar no seu armazém e acompanhava as coisas de sua fazenda de café. Jonas sempre gostou de se informar, assistia a todos os noticiários e sabia o que acontecia no mundo inteiro.

Aos 80 anos Jonas descobriu que tinha câncer de próstata. Os médicos não recomendaram a cirurgia, pois com sua idade avançada ele não sobreviveria a um procedimento tão agressivo assim. Isso não abalou Jonas, que continuou levando sua vida como sempre.

Com pouco mais de 90 anos Jonas passou pela pior dor que um pai pode sofrer: viu um de seus filhos morrer. Apesar de sua tristeza ele continuou forte. “Deus quis assim”, disse na época. Sua teimosia lhe fez seguir em frente.

Alguns anos depois Jonas perdeu a visão. Não podia mais jogar cartas, mas sua mente continuava afiada como sempre, capaz de fazer contas de cabeça mais rápido do que com a ajuda de uma calculadora.

Mesmo com dificuldade Jonas ia ao seu armazém todos os dias, não mais para trabalhar e sim por que ele gostava de sair de casa, encontrar com as pessoas, bater-papo. Era capaz de falar sobre qualquer assunto, sempre tinha uma opinião ou bom conselho a dar e nunca estava errado.

Pão-duro de marca maior era famoso pelos presentes que dava aos netos: caixas de chocolates ou sabonetes perfumados. Mas ele adorava ver a família, cada vez maior, reunida. Gostava de falar com todos, reclamar de quem tinha engordado demais, parabenizar quem estava indo bem de vida e confortar quem não ia tão bem assim.

Jonas foi um herói para seus filhos, um exemplo para seus netos e um ídolo para todos que o conheceram. Tão lúcido quanto viveu, Jonas morreu hoje, aos 98 anos de idade. E eu não poderia desejar um avô melhor do que ele foi.

Adeus, vovô Jonas. A gente se vê por aí.


Leave a Reply